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BELEZA EM FOCO: a difícil missão de estar adaquada aos padrões

Na última semana, estive em um jantar oferecido a editoras de moda de publicações estrangeiras, essas deusas que dizem o que é permitido e o que é definitivamente proibido usar. Fui ao cabeleireiro, fiz uma escova e, como estava com 1 quilo a mais do que meu peso ideal (sempre estou), comprei uma cinta para que nem 1 só grama de gordura aparecesse. Passei horas pensando em como me vestir e, sem saber o que é a moda hoje em dia, resolvi usar um pretinho básico, simples, daqueles que não deixam a menor dúvida. E ainda botei uns brincos de pérolas, pobre de mim. Fui pontual e quase passei mal durante o jantar, sem poder respirar. Logo chegaram as que entendem de tudo e começou, então, minha depressão. Elas eram de diversas nacionalidades: havia duas alemãs, duas francesas, duas americanas, uma inglesa, uma espanhola, uma portuguesa. Como estavam? Vou tentar contar.



Para começar, os cabelos. Era visível que nenhuma havia pisado num salão nos últimos dois anos, nem para cortar, nem para pintar, nem para fazer luzes, nem para nada. Havia de tudo, da ruiva meio manchada até a morena crespa pela própria natureza; todas deixaram claro que não ligam para essas coisas. Com meus cabelos impecáveis, me senti um lixo. Para piorar, eu estava ali espremida como uma linguiça, enquanto pelo menos três delas eram gordas, bem gordas, e, quando cruzavam descuidadamente as pernas, nem ligavam para a grossura de suas coxas. Comeram de tudo, repetiram, e nem é preciso dizer que a palavra dieta não foi pronunciada em nenhum idioma. Como posso ser tão ridícula?
As roupas daquelas que entendem tudo eram, por assim dizer, incompreensíveis: desde vestidos com grandes estampas e decote mostrando seios imensos até calça comprida com três tops, nenhum tendo a ver com o outro. Bolsas e bijuterias também não combinavam com sapatos nem com nada - uma usava um vestido de gaze plissado, cor da pele, com cintura no lugar, cinturão de couro debaixo dos seios e bolsinha de paetês coloridos. Eu me sentia cada vez pior quando, felizmente, entrou uma jovem vestida de um modo que consegui entender: saia preta de babados e, por cima, uma jaquetinha jeans bem apertada.
Voltei para casa humilhada, ofendida, achando - com razão - que não entendia nada. A primeira providência foi entrar no chuveiro e lavar a cabeça para dormir com o cabelo molhado, me arriscando a uma pneumonia, só para ficar mais moderna. No dia seguinte, telefonei para uma amiga do ramo. Ela me assegurou que, para chegar àquele visual, com os cabelos pavorosos e nada combinando com nada, elas passam o tempo todo pensando nisso - um talento que invejo. Olhei disfarçadamente para o espelho e, quando me vi desgrenhada, achei que talvez já estivesse mais aceitável no mundo da moda. Abri meu armário e tentei misturar mentalmente as peças, sem que uma tivesse a ver com a outra; não consegui. As tentativas foram inúteis, pois eu - pobre de mim - ainda acredito em uma certa harmonia no visual, e quem pensa assim não pode nem chegar perto do sofisticado mundo da alta-costura (ou baixa, depende do ponto de vista) atual.
E já decidi: da próxima vez que me convidarem para um jantar da moda - se houver próxima vez -, apagarei a luz e pegarei roupas sem olhar. Talvez aí consiga ser mais aceitável; não tenho grandes pretensões, mas pelo menos não pensarei que morri e esqueceram de me avisar.
Muito triste essa vida.
Danuza Leão é cronista, autora de vários livros, entre os quais Fazendo as Malas (Cia. das Letras) e É Tudo Tão Simples (Agir)

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